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Mostrando postagens com o rótulo AnálisePoética

Poema do Menino Jesus – Alberto Caeiro

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Entre o sagrado e o pó da estrada Análise por Pinguim Urbano • Selo: Clássicos Desfeitos Poema do Menino Jesus Num meio-dia de fim de primavera Tive um sonho como uma fotografia. Vi Jesus Cristo descer à terra. Veio pela encosta de um monte Tornado outra vez menino, A correr e a rolar-se pela erva E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se de longe. Tinha fugido do céu. Era nosso demais para fingir De segunda pessoa da Trindade. No céu era tudo falso, tudo em desacordo Com flores e árvores e pedras. No céu ele tinha que estar sempre sério, E de vez em quando tornar-se outra vez homem E subir para a cruz, e estar sempre a morrer Com uma coroa toda à roda de espinhos E os pés furados por um prego com cabeça. E até o que lhe ensinaram sobre o amor E a justiça e a bondade Cheirava a máquinas a trabalhar e a rangidos de ferros que custam a parar. Quando era me...

Todas as cartas de amor são ridículas – Álvaro de Campos

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Ridículo é fingir que não sente Análise por Pinguim Urbano • Selo: Clássicos Desfeitos Todas as cartas de amor são ridículas Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, como as outras, ridículas. As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas. Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas. Quem me dera no tempo em que escrevia sem dar por isso cartas de amor ridículas. A verdade é que hoje as minhas memórias dessas cartas de amor é que são ridículas. (Todas as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos, são naturalmente ridículas.) ~Álvaro de Campos 1. Introdução e Contexto Fernando Pessoa, sob o heterônimo Álvaro de Campos, era o que mais carregava o peso das emoções no bolso — e o escondia mal. Escrito nos anos 1930, esse poema nasce num contexto de desilusão íntima: um tempo em que o modernismo ava...

Ela - DárioJr.

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Feita de som, água e sombra Por Pinguim Urbano De vez em quando, eu caminho fora das minhas ruas habituais. Esse poema não é meu, mas está em um projeto do qual faço parte — onde outras vozes também escrevem com o que sobra da alma. Abaixo, minha leitura de um dos textos que veio de lá. Deixo o link do poema (existem vários outros lá, que pretendo analisar no futuro) segue aqui o caminho . “Ela é fantástica e nem se dá conta” O poema começa com espanto — não o da surpresa, mas o da rendição. Dário escreve como quem descreve um fenômeno da natureza: algo que escapa à lógica. Ela não precisa saber. Ela apenas é. E isso já basta pra virar furacão dentro de quem vê. A mulher aqui não é musa passiva. Ela é movimento. Inunda, invade, colore, toma. É como um rio que não pede licença. E o eu lírico não tenta domá-la — tenta sobreviver ao impacto. “Ela só pode ser feita de som / Pois com ...

Os ombros suportam o mundo – Carlos Drummond de Andrade

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O mundo não pesa mais Análise por Pinguim Urbano • Selo: Clássicos Desfeitos Os ombros suportam o mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. És todo certeza, já não sabes sofrer. E nada esperas de teus amigos. Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não ...

Amar para quê?

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Cor de raiva Por Pinguim Urbano Amar para quê? Amar é um elo entre o azul e o amarelo. Fico verde de raiva quando penso nisso. ~Paulo Leminski “Amar é um elo entre o azul e o amarelo.” Leminski começa brincando de roda com as palavras — mas o tapa vem logo depois. Usando três cores e cinco versos, ele traça um poema que parece leve à primeira vista. Parece. Porque por trás da ironia, tem frustração pura disfarçada de esperteza. O tal “elo entre o azul e o amarelo” é o verde . Mas o que deveria ser harmonia vira desconforto. Porque o verde aqui não é esperança. É raiva. O sentimento que sobra quando o amor não vale o que custa. “Fico verde de raiva / quando penso nisso.” A conclusão do poema quebra o romantismo da imagem anterior. Ele desmonta a metáfora como quem pisa no próprio presente dado. Não tem mais paciência. Não tem mais flor. Só sobra o sarcasmo. ...

Poema em linha reta

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Ninguém sangra bonito Por Pinguim Urbano “Nunca conheci quem tivesse levado porrada.” POEMA EM LINHA RETA Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado, Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angúst...

Guarde seu amor para quando eu estiver morto

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Guarde seu amor (pra quando for inútil) Por Pinguim Urbano Guarde seu amor para quando eu estiver morto Não me ligue Não me procure Deixe para mandar aquela mensagem amanhã Quando eu não mais ouvir Quando eu não mais estar Quando eu não mais ler Guarde seu amor e seus erros ortográficos Para você Deixe seu afeto debaixo do teu teto Engula todas as palavras secas Que sempre pensou em me dizer Compre já a vela que você irá acender Ela queimará junto com tudo O que já fui pra você Prepare um café forte e amargo Aperta forte o próprio braço Pra se lembrar do meu gosto E do meu abraço Escolhe o teu canto preferido do espaço E olha Mas tenta não chorar Quando esse espaço Te lembrar o meu olhar E eu não vou olhar de volta. Guarda o seu amor frio Para quando ele combinar comigo. -Coisas que você nunca saberá se foram feitas pra você... Higor Lapola “Guarde seu amor para quando eu estiver morto” A prim...

Dá-me a tua mão - Clarice

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Entre o Gelo e o Fôlego do Mundo Por Pinguim Urbano “Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio”. ~Clarice Lispector “Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta.” Clarice não pede permissão — ela estende a mão. É um convite frio e íntimo ao mesmo tempo, quase clínico. A mão que ela oferece não ...