Postagens

Mostrando postagens com o rótulo poesia

O Abismo - DárioJr.

Imagem
O Abismo – Análise Poética Por Pinguim Urbano • Publicado em Café com Caneta O poema "O Abismo" , de Dário Junior, é um mergulho visceral na vertigem do colapso interior — aquele momento em que a vida parece nos arrastar sem piedade em direção a um ponto sem retorno. Com imagens poderosas e simbolismo sombrio, o texto evoca a sensação de ser puxado para a beira de um descontrole emocional, onde o abismo é metáfora e destino. A primeira metade do poema apresenta a inexorabilidade da queda : somos arrastados como por uma correnteza, sem forças ou recursos para resistir. A cachoeira ao longe é a visão daquilo que virá e que não pode ser evitado. A imagem do “fim da linha” não apenas sugere morte ou colapso literal, mas o esgotamento de todas as alternativas, a completa impotência diante da força avassaladora da existência. “Você sente que ao chegar lá, perderá sua mente seu corpo, sua vida.” Aqui, a linguagem é crua. Não há espaço para eufemismo...

Amar para quê?

Imagem
Cor de raiva Por Pinguim Urbano Amar para quê? Amar é um elo entre o azul e o amarelo. Fico verde de raiva quando penso nisso. ~Paulo Leminski “Amar é um elo entre o azul e o amarelo.” Leminski começa brincando de roda com as palavras — mas o tapa vem logo depois. Usando três cores e cinco versos, ele traça um poema que parece leve à primeira vista. Parece. Porque por trás da ironia, tem frustração pura disfarçada de esperteza. O tal “elo entre o azul e o amarelo” é o verde . Mas o que deveria ser harmonia vira desconforto. Porque o verde aqui não é esperança. É raiva. O sentimento que sobra quando o amor não vale o que custa. “Fico verde de raiva / quando penso nisso.” A conclusão do poema quebra o romantismo da imagem anterior. Ele desmonta a metáfora como quem pisa no próprio presente dado. Não tem mais paciência. Não tem mais flor. Só sobra o sarcasmo. ...

Estilo - Charles Bukowski

Imagem
Estilo ou Nada Por Pinguim Urbano Estilo Estilo é a resposta para tudo. Um jeito especial de fazer uma estupidez ou algo perigoso. Antes fazer uma estupidez com estilo do que fazer algo perigoso sem estilo. Fazer algo perigoso com estilo é o que eu chamo de Arte. Tourada pode ser arte. Boxe pode ser arte. Amar pode ser arte Abrir uma lata de sardinha pode ser arte Não muitos tem estilo Não muitos mantém o estilo. Eu já vi cães com mais estilo que homens Apesar de que poucos cães tivessem estilo. Gatos tem em abundância. Quando Hemingway colocou seus miolos no muro com uma espingarda, teve estilo. Há pessoas que dão estilo Joana D’Arc tinha estilo. João Batista, Jesus, Sócrates, César, García Lorca. Conheci homens na prisão com estilo. Conheci mais homens com estilo na prisão do que fora dela. Estilo faz a diferença. O jeito de se fazer. O jeito de ser feito. Seis garças em pé tranquilas numa poça da água Ou você, saindo nua do quarto, sem me ver. – Charles Bukowski ...

Dá-me a tua mão - Clarice

Imagem
Entre o Gelo e o Fôlego do Mundo Por Pinguim Urbano “Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio”. ~Clarice Lispector “Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta.” Clarice não pede permissão — ela estende a mão. É um convite frio e íntimo ao mesmo tempo, quase clínico. A mão que ela oferece não ...

Gosto quando te calas

Imagem
Gosto quando te calas – A linguagem do silêncio em Pablo Neruda Gosto quando te calas Gosto quando te calas porque estás como ausente, e me ouves de longe, minha voz não te toca. Parece que os olhos tivessem de ti voado e parece que um beijo te fechara a boca. Como todas as coisas estão cheias da minha alma emerge das coisas, cheia da minha alma. Borboleta de sonho, pareces com minha alma, e te pareces com a palavra melancolia. Gosto de ti quando calas e estás como distante. E estás como que te queixando, borboleta em arrulho. E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança: Deixa-me que me cale com o silêncio teu. Deixa-me que te fale também com o teu silêncio claro como uma lâmpada, simples como um anel. És como a noite, calada e constelada. Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo. Gosto de ti quando calas porque estás como ausente. Distante e dolorosa como se tivesses morrido. Uma palavra então, um sorriso bastam. E eu estou alegre, alegre de que não s...

O Coração Risonho – Bukowski

Imagem
O Coração Risonho – Bukowski, entre os escombros do otimismo O coração risonho Sua vida é sua vida Não deixe que ela seja esmagada na fria submissão. Esteja atento. Existem outros caminhos. E em algum lugar, ainda existe luz. Pode não ser muita luz, mas ela vence a escuridão Esteja atento. Os deuses vão lhe oferecer oportunidades. Reconheça-as. Agarre-as. Você não pode vencer a morte, mas você pode vencer a morte durante a vida, às vezes. E quanto mais você aprender a fazer isso, mais luz vai existir. Sua vida é sua vida. Conheça-a enquanto ela ainda é sua. Você é maravilhoso. Os deuses esperam para se deliciar em você. Há uma doçura amarga em "O coração risonho" , como se Bukowski cuspisse flores manchadas de sangue. O tipo de poema que não pede licença para entrar, mas invade a sua cabeça, abre a geladeira, fuma um cigarro e ri da sua depressão. Bukowski nos emp...

Soneto da Separação— Vinicius de Moraes

Imagem
Soneto da Separação Soneto de separação De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente. ~Vinicius de Moraes “De repente do riso fez-se o pranto…” Assim começa um dos sonetos mais comoventes da literatura brasileira. O Soneto da Separação , de Vinicius de Moraes, é uma ode à transição abrupta entre amor e dor, entre permanência e perda, entre o que se sente e o que se cala. Em apenas 14 versos, o autor transforma uma história de amor em um retrato sincero do fim — um fim que não é apenas factual, mas vi...

Bukowski - Garotas quietas e Limpas em Vestidos de Algodão

Imagem
Garotas quietas, vestidos de algodão e a dor de não caber na paz Garotas quietas, vestidos de algodão e a dor de não caber na paz Garotas Quietas tudo que eu sempre conheci foram putas, ex-prostitutas, loucas. vejo homens com mulheres quietas, gentis – vejo-os nos supermercados, vejo-os caminhando juntos pelas ruas, vejo-os em seus apartamentos: pessoas em paz, vivendo juntas. sei que sua paz é apenas parcial, mas existe paz, frequentes horas e dias de paz. tudo que eu sempre conheci foram comedoras de comprimidos, alcoólatras, putas, ex-prostitutas, loucas. quando uma vai embora chega outra pior do que sua antecessora. vejo tantos homens com garotas quietas e limpas em vestidos de algodão garotas com rostos que não são rapaces ou predatórios. “nunca traga uma puta com você,” eu digo para meus poucos amigos, “eu vou me apaixonar por ela.” “você não aguenta uma boa mulher, Bukowski.” preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher mais do que preciso de...