Postagens

Mostrando postagens de abril, 2025

Hotel de beira da estrada - Desconhecido

Imagem
Hospedagem emocional: não tem check-out limpo Análise por Pinguim Urbano • Selo: Parece mas não é Sou como aquele hotel na beira da estrada. Onde tantas pessoas já passaram. Algumas por uma só noite, apressadas foram embora sem nem tomar o café da manhã. Outras ficaram dias e mais dias, e mais dias. Ocuparam os espaços. Ocuparam meus vazios. Fizeram festa. Conversaram madrugadas a dentro e foram permanecendo. Sou como aquele hotel no meio da estrada. Para alguns, salvação. Para outros, refúgio. Sou o lugar em que muitos descansaram. E também bagunçaram. Reviraram tudo e foram embora sem arrumar nada. fugiram no meio da noite. Sem pagar o que me deviam. Sem dizer muito obrigado. Abriguei todo tipo de gente. Chegadas. Partidas. A verdade é que todos permaneceram o tempo que deviam permanecer. Nem um dia a mais. Nem um dia a menos. Ficaram tempo suficiente para contarem a sua história e conhecerem a minha. Ninguém foi embora sem me deixar uma lição, um aprendizado....

Todas as cartas de amor são ridículas – Álvaro de Campos

Imagem
Ridículo é fingir que não sente Análise por Pinguim Urbano • Selo: Clássicos Desfeitos Todas as cartas de amor são ridículas Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, como as outras, ridículas. As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas. Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas. Quem me dera no tempo em que escrevia sem dar por isso cartas de amor ridículas. A verdade é que hoje as minhas memórias dessas cartas de amor é que são ridículas. (Todas as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos, são naturalmente ridículas.) ~Álvaro de Campos 1. Introdução e Contexto Fernando Pessoa, sob o heterônimo Álvaro de Campos, era o que mais carregava o peso das emoções no bolso — e o escondia mal. Escrito nos anos 1930, esse poema nasce num contexto de desilusão íntima: um tempo em que o modernismo ava...

Ela - DárioJr.

Imagem
Feita de som, água e sombra Por Pinguim Urbano De vez em quando, eu caminho fora das minhas ruas habituais. Esse poema não é meu, mas está em um projeto do qual faço parte — onde outras vozes também escrevem com o que sobra da alma. Abaixo, minha leitura de um dos textos que veio de lá. Deixo o link do poema (existem vários outros lá, que pretendo analisar no futuro) segue aqui o caminho . “Ela é fantástica e nem se dá conta” O poema começa com espanto — não o da surpresa, mas o da rendição. Dário escreve como quem descreve um fenômeno da natureza: algo que escapa à lógica. Ela não precisa saber. Ela apenas é. E isso já basta pra virar furacão dentro de quem vê. A mulher aqui não é musa passiva. Ela é movimento. Inunda, invade, colore, toma. É como um rio que não pede licença. E o eu lírico não tenta domá-la — tenta sobreviver ao impacto. “Ela só pode ser feita de som / Pois com ...

Bilhete – Mario Quintana

Imagem
Não grite meu nome Análise por Pinguim Urbano • Selo: Clássicos Desfeitos Bilhete Se tu me amas, ama-me baixinho. Não o grites de cima dos telhados. Deixa em paz os passarinhos. Deixa em paz a mim! Se me queres, enfim, tem de ser bem devagarinho, amada, que a vida é breve, e o amor mais breve ainda. ~Mario Quintana “Se tu me amas, ama-me baixinho.” Quintana não pede amor. Pede silêncio. Pede espaço para que o amor exista sem virar espetáculo. Como quem sabe que a luz demais estraga a fotografia. E que sentimento exposto demais apodrece mais rápido. “Não o grites de cima dos telhados.” O poeta rejeita o amor performático. Não quer que o sentimento vire anúncio. Porque amor, pra quem entende de perda, precisa ser tratado como uma coisa frágil. Algo que se carrega escondido no bolso, não em bandeiras de rua. “Deixa em paz os passarinhos. Deixa em paz a mim!” ...

Os ombros suportam o mundo – Carlos Drummond de Andrade

Imagem
O mundo não pesa mais Análise por Pinguim Urbano • Selo: Clássicos Desfeitos Os ombros suportam o mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. És todo certeza, já não sabes sofrer. E nada esperas de teus amigos. Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não ...

Me alugo para sonhar – Gabriel García Márquez

Imagem
Sonhar cansa. E tem gente que cobra menos por isso. Por Pinguim Urbano Me alugo para sonhar. Como não tenho mais nada, nem ninguém, alugo-me. Alugo meus olhos, para quem quiser ver com os olhos de dentro. Alugo meus braços, para quem não tem abraços. Alugo minhas pernas, para quem tem caminhos demais. Alugo minhas noites, para quem só dorme de dia. Me alugo barato, me alugo de graça. Me alugo para sonhar. “Me alugo para sonhar. Como não tenho mais nada, nem ninguém, alugo-me.” O poema já começa no fim. Quem diz isso não sonha mais por escolha — sonha porque é a única moeda que sobrou. Sonhar virou ofício, quase esmola. Quando a vida vira aluguel, até o que era sagrado vira prestação. “Alugo meus olhos, para quem quiser ver com os olhos de dentro.” A poesia aqui não é sobre esperança. É sobre cansaço. É sobre o sujeito que já cansou de olhar pra fora, e agora empresta o que sobrou de si. Um tipo...

Azul como uma laranja - Paul Éluard

Imagem
A beleza que não faz sentido (e por isso mesmo é real) Por Pinguim Urbano Azul como uma laranja A Terra é azul como uma laranja Nunca um erro as palavras não mentem Não te dá o que te prometem Com alento a te prender Os loucos e os amantes Ela, sua boca de aliança Todos os segredos, todos os sorrisos E que indulgente ornamento Até mesmo a morte a suporta Os amores de sua vida O seu segredo, sua saliva Sua febre de sempre Ela diz sim a tudo ~Paul Éluard “A Terra é azul como uma laranja” É assim que começa. Com um erro. Com um delírio. Com uma imagem que não deveria fazer sentido, mas faz — de um jeito que só quem anda com o coração quebrado pelas calçadas entende. Porque às vezes o mundo é isso: bonito e completamente incoerente. Paul Éluard era surrealista. Mas o que ele escreve aqui não é só surreal — é poético na forma mais suja e pura da palavra. Ele diz que as palavras não mentem, mas também avisa qu...

Fases da lua - Desconhecido

Imagem
Fases que ninguém vê Por Pinguim Urbano “Tenho fases, como a lua; fases de ser sozinha, fases de ser só sua, fases de não ser ninguém.” Esse texto costuma circular com o nome de Cecília Meireles. Mas não é dela. Ou, pelo menos, ninguém nunca provou que seja. Ainda assim, ele carrega a mesma melancolia elegante e flutuante que Cecília usava. A diferença é que aqui, o tom é mais nu — mais cru. O eu poético se reconhece por fragmentos. Não por essência. É alguém que muda — não só de humor, mas de forma. Às vezes inteira. Às vezes metades. Às vezes só ausência. “Fases de não ser ninguém” é uma frase que bate seco no estômago. Porque quem já se sentiu invisível sabe exatamente do que ela está falando. Não é sobre solidão romântica. É sobre sumir até de si mesmo. Essa é uma daquelas poesias que não precisam ser atribuídas a ninguém. Porque já foram vividas por todo mundo...

Retrato - Cecília Meireles

Imagem
O tempo me apagou na frente do espelho Por Pinguim Urbano Retrato Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: — Em que espelho ficou perdida a minha face? ~Cecília Meireles “Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro...” Cecília não escreve sobre o tempo. Ela escreve com ele. E em Retrato , o tempo não é uma linha — é um apagador. A poeta olha pro espelho e não se reconhece. Não porque o rosto mudou, mas porque a alma evaporou aos poucos sem ninguém perceber. O poema não é vaidade nem saudade. É constatação. De que existe um ponto da vida em que a gente se torna o retrato de alguém que não lembra mais quem era. ...

Ode ao Gato – Pablo Neruda

Imagem
Gato não se explica Por Pinguim Urbano Ode ao Gato (tradução) Os animais foram imperfeitos, longos de rabo, tristes de cabeça. Pouco a pouco foram se compondo, tornando-se paisagem, adquirindo graça, voo. O gato, só o gato apareceu completo e orgulhoso: nasceu completamente acabado, caminha sozinho e sabe o que quer. O homem quer ser peixe e pássaro, a serpente gostaria de ter asas, o cão é um leão desorientado, o engenheiro quer ser poeta, a mosca estuda para ser andorinha, o poeta tenta imitar a mosca, mas o gato quer ser só gato e todo gato é gato desde o bigode ao rabo, desde o pressentimento rato até a rosa das unhas. Não há unidade como a dele, ele é absolutamente claro e obscuro, como a noite, e o silêncio da pedra molhada. Seus olhos têm apenas uma fenda que deixa passar moedas de ouro. E depois dorme no ritmo da chuva e no sangue do gato todas as forças se aliam, um dia ele é apenas a sombra de um vitral na catedral da noite, no outro dia, salta como um rai...

Poema Sujo (Trechos) - Ferreira Gullar

Imagem
Sujo porque é real Por Pinguim Urbano Poema Sujo é um poema imenso, com mais de 100 páginas em sua versão original. É considerado um dos poemas mais longos e intensos da literatura brasileira contemporânea. Vamos olhar alguns trechos... “a vida não basta ser vivida também precisa ser sonhada” Essa frase, isolada, já diria muito. Mas dentro do Poema Sujo , ela vira prego. Um prego enferrujado, cravado numa parede de lembranças, perdas e vontades. Ferreira Gullar escreveu esse poema em exílio, mas não só político — ele estava fora de si. Deslocado do país, do corpo, do tempo. O que ele faz aqui não é escrever poesia. É evacuar memória. Tudo o que doía, o que sumiu, o que ele não sabia onde guardar — virou verso. Um verso sujo porque não tem filtro. Porque respira mofo, chão de rua e saudade com gosto metálico. “meu corpo que na infância era um graveto que minha mãe vestia e despia ...

O Amor - Carlos Drummond de Andrade

Imagem
Amor sobrevive, mas não sai ileso Por Pinguim Urbano O Amor O amor é primo da morte, e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor. Carlos Drummond de Andrade Drummond não romantiza. Ele resume. O amor, pra ele, não é flor. É campo de batalha. E mesmo assim, o amor vence. Não por ser forte — mas por ser teimoso. Porque o amor apanha, sangra, morre mil vezes... mas continua reaparecendo. Como um sobrevivente de guerra emocional. Chamar o amor de “primo da morte” é declarar parentesco com o fim. É admitir que amar tem prazo, tem risco, tem algo de perda embutida. E que, ainda assim, a gente insiste. Ou pior: a gente nem precisa insistir — ele volta sozinho. “por mais que o matem (e matam)” Essa linha entre parênteses parece sussurro, mas é soco. Quantas vezes o amor já morreu no seu peito? Quantas vezes você matou o de alguém? Drummond não acusa. E...

Medo da Eternidade - Paulo Leminski

Imagem
Eterno demais pra valer Por Pinguim Urbano Medo da Eternidade sei que a vida não presta sei que a vida não dura sei também que a vida é curta e que não vale a pena nenhuma vida ser eterna ~Paulo Leminski Leminski não está pedindo desculpas por ser pessimista. Ele está sendo honesto — o que é bem mais raro. O poema começa com uma constatação seca: a vida, do jeito que ela é, não compensa. Não por ser dolorosa, mas por ser mal distribuída. Rasa demais pra merecer eternidade. Aqui, o poeta não está em crise existencial. Está de saco cheio. Cada linha é uma martelada na ilusão de que viver já basta. “Sei que a vida não presta” — sem drama, só lucidez gelada. A ironia aparece no último verso: “nenhuma vida ser eterna”. Parece contrassenso — afinal, eternidade costuma ser um prêmio. Mas Leminski inverte: se a vida já vem com prazo de validade emocional, estendê-la seria punição. E nesse ponto, ele não f...

Amar para quê?

Imagem
Cor de raiva Por Pinguim Urbano Amar para quê? Amar é um elo entre o azul e o amarelo. Fico verde de raiva quando penso nisso. ~Paulo Leminski “Amar é um elo entre o azul e o amarelo.” Leminski começa brincando de roda com as palavras — mas o tapa vem logo depois. Usando três cores e cinco versos, ele traça um poema que parece leve à primeira vista. Parece. Porque por trás da ironia, tem frustração pura disfarçada de esperteza. O tal “elo entre o azul e o amarelo” é o verde . Mas o que deveria ser harmonia vira desconforto. Porque o verde aqui não é esperança. É raiva. O sentimento que sobra quando o amor não vale o que custa. “Fico verde de raiva / quando penso nisso.” A conclusão do poema quebra o romantismo da imagem anterior. Ele desmonta a metáfora como quem pisa no próprio presente dado. Não tem mais paciência. Não tem mais flor. Só sobra o sarcasmo. ...

Poema em linha reta

Imagem
Ninguém sangra bonito Por Pinguim Urbano “Nunca conheci quem tivesse levado porrada.” POEMA EM LINHA RETA Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado, Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angúst...

Guarde seu amor para quando eu estiver morto

Imagem
Guarde seu amor (pra quando for inútil) Por Pinguim Urbano Guarde seu amor para quando eu estiver morto Não me ligue Não me procure Deixe para mandar aquela mensagem amanhã Quando eu não mais ouvir Quando eu não mais estar Quando eu não mais ler Guarde seu amor e seus erros ortográficos Para você Deixe seu afeto debaixo do teu teto Engula todas as palavras secas Que sempre pensou em me dizer Compre já a vela que você irá acender Ela queimará junto com tudo O que já fui pra você Prepare um café forte e amargo Aperta forte o próprio braço Pra se lembrar do meu gosto E do meu abraço Escolhe o teu canto preferido do espaço E olha Mas tenta não chorar Quando esse espaço Te lembrar o meu olhar E eu não vou olhar de volta. Guarda o seu amor frio Para quando ele combinar comigo. -Coisas que você nunca saberá se foram feitas pra você... Higor Lapola “Guarde seu amor para quando eu estiver morto” A prim...

Estilo - Charles Bukowski

Imagem
Estilo ou Nada Por Pinguim Urbano Estilo Estilo é a resposta para tudo. Um jeito especial de fazer uma estupidez ou algo perigoso. Antes fazer uma estupidez com estilo do que fazer algo perigoso sem estilo. Fazer algo perigoso com estilo é o que eu chamo de Arte. Tourada pode ser arte. Boxe pode ser arte. Amar pode ser arte Abrir uma lata de sardinha pode ser arte Não muitos tem estilo Não muitos mantém o estilo. Eu já vi cães com mais estilo que homens Apesar de que poucos cães tivessem estilo. Gatos tem em abundância. Quando Hemingway colocou seus miolos no muro com uma espingarda, teve estilo. Há pessoas que dão estilo Joana D’Arc tinha estilo. João Batista, Jesus, Sócrates, César, García Lorca. Conheci homens na prisão com estilo. Conheci mais homens com estilo na prisão do que fora dela. Estilo faz a diferença. O jeito de se fazer. O jeito de ser feito. Seis garças em pé tranquilas numa poça da água Ou você, saindo nua do quarto, sem me ver. – Charles Bukowski ...

Dá-me a tua mão - Clarice

Imagem
Entre o Gelo e o Fôlego do Mundo Por Pinguim Urbano “Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio”. ~Clarice Lispector “Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta.” Clarice não pede permissão — ela estende a mão. É um convite frio e íntimo ao mesmo tempo, quase clínico. A mão que ela oferece não ...

O pássaro azul

Imagem
O Pássaro Azul (Bukowski) O pássaro azul há um pássaro azul em meu peito que quer sair mas sou duro demais com ele, eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja. há um pássaro azul em meu peito que quer sair mas eu despejo uísque sobre ele e inalo fumaça de cigarro e as putas e os atendentes dos bares e das mercearias nunca saberão que ele está lá dentro. há um pássaro azul em meu peito que quer sair mas sou duro demais com ele, eu digo, fique aí, quer acabar comigo? quer foder com minha escrita? quer arruinar a venda dos meus livros na Europa? há um pássaro azul em meu peito que quer sair mas sou bastante esperto, deixo que ele saia somente em algumas noites quando todos estão dormindo. eu digo, sei que você está aí, então não fique triste. depois o coloco de volta em seu lugar, mas ele ainda canta um pouquinho lá dentro, não dei...

Gosto quando te calas

Imagem
Gosto quando te calas – A linguagem do silêncio em Pablo Neruda Gosto quando te calas Gosto quando te calas porque estás como ausente, e me ouves de longe, minha voz não te toca. Parece que os olhos tivessem de ti voado e parece que um beijo te fechara a boca. Como todas as coisas estão cheias da minha alma emerge das coisas, cheia da minha alma. Borboleta de sonho, pareces com minha alma, e te pareces com a palavra melancolia. Gosto de ti quando calas e estás como distante. E estás como que te queixando, borboleta em arrulho. E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança: Deixa-me que me cale com o silêncio teu. Deixa-me que te fale também com o teu silêncio claro como uma lâmpada, simples como um anel. És como a noite, calada e constelada. Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo. Gosto de ti quando calas porque estás como ausente. Distante e dolorosa como se tivesses morrido. Uma palavra então, um sorriso bastam. E eu estou alegre, alegre de que não s...

O Coração Risonho – Bukowski

Imagem
O Coração Risonho – Bukowski, entre os escombros do otimismo O coração risonho Sua vida é sua vida Não deixe que ela seja esmagada na fria submissão. Esteja atento. Existem outros caminhos. E em algum lugar, ainda existe luz. Pode não ser muita luz, mas ela vence a escuridão Esteja atento. Os deuses vão lhe oferecer oportunidades. Reconheça-as. Agarre-as. Você não pode vencer a morte, mas você pode vencer a morte durante a vida, às vezes. E quanto mais você aprender a fazer isso, mais luz vai existir. Sua vida é sua vida. Conheça-a enquanto ela ainda é sua. Você é maravilhoso. Os deuses esperam para se deliciar em você. Há uma doçura amarga em "O coração risonho" , como se Bukowski cuspisse flores manchadas de sangue. O tipo de poema que não pede licença para entrar, mas invade a sua cabeça, abre a geladeira, fuma um cigarro e ri da sua depressão. Bukowski nos emp...

Soneto da Separação— Vinicius de Moraes

Imagem
Soneto da Separação Soneto de separação De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente. ~Vinicius de Moraes “De repente do riso fez-se o pranto…” Assim começa um dos sonetos mais comoventes da literatura brasileira. O Soneto da Separação , de Vinicius de Moraes, é uma ode à transição abrupta entre amor e dor, entre permanência e perda, entre o que se sente e o que se cala. Em apenas 14 versos, o autor transforma uma história de amor em um retrato sincero do fim — um fim que não é apenas factual, mas vi...

Bukowski - Garotas quietas e Limpas em Vestidos de Algodão

Imagem
Garotas quietas, vestidos de algodão e a dor de não caber na paz Garotas quietas, vestidos de algodão e a dor de não caber na paz Garotas Quietas tudo que eu sempre conheci foram putas, ex-prostitutas, loucas. vejo homens com mulheres quietas, gentis – vejo-os nos supermercados, vejo-os caminhando juntos pelas ruas, vejo-os em seus apartamentos: pessoas em paz, vivendo juntas. sei que sua paz é apenas parcial, mas existe paz, frequentes horas e dias de paz. tudo que eu sempre conheci foram comedoras de comprimidos, alcoólatras, putas, ex-prostitutas, loucas. quando uma vai embora chega outra pior do que sua antecessora. vejo tantos homens com garotas quietas e limpas em vestidos de algodão garotas com rostos que não são rapaces ou predatórios. “nunca traga uma puta com você,” eu digo para meus poucos amigos, “eu vou me apaixonar por ela.” “você não aguenta uma boa mulher, Bukowski.” preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher mais do que preciso de...