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Hotel de beira da estrada - Desconhecido

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Hospedagem emocional: não tem check-out limpo Análise por Pinguim Urbano • Selo: Parece mas não é Sou como aquele hotel na beira da estrada. Onde tantas pessoas já passaram. Algumas por uma só noite, apressadas foram embora sem nem tomar o café da manhã. Outras ficaram dias e mais dias, e mais dias. Ocuparam os espaços. Ocuparam meus vazios. Fizeram festa. Conversaram madrugadas a dentro e foram permanecendo. Sou como aquele hotel no meio da estrada. Para alguns, salvação. Para outros, refúgio. Sou o lugar em que muitos descansaram. E também bagunçaram. Reviraram tudo e foram embora sem arrumar nada. fugiram no meio da noite. Sem pagar o que me deviam. Sem dizer muito obrigado. Abriguei todo tipo de gente. Chegadas. Partidas. A verdade é que todos permaneceram o tempo que deviam permanecer. Nem um dia a mais. Nem um dia a menos. Ficaram tempo suficiente para contarem a sua história e conhecerem a minha. Ninguém foi embora sem me deixar uma lição, um aprendizado....

Todas as cartas de amor são ridículas – Álvaro de Campos

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Ridículo é fingir que não sente Análise por Pinguim Urbano • Selo: Clássicos Desfeitos Todas as cartas de amor são ridículas Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, como as outras, ridículas. As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas. Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas. Quem me dera no tempo em que escrevia sem dar por isso cartas de amor ridículas. A verdade é que hoje as minhas memórias dessas cartas de amor é que são ridículas. (Todas as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos, são naturalmente ridículas.) ~Álvaro de Campos 1. Introdução e Contexto Fernando Pessoa, sob o heterônimo Álvaro de Campos, era o que mais carregava o peso das emoções no bolso — e o escondia mal. Escrito nos anos 1930, esse poema nasce num contexto de desilusão íntima: um tempo em que o modernismo ava...

Ela - DárioJr.

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Feita de som, água e sombra Por Pinguim Urbano De vez em quando, eu caminho fora das minhas ruas habituais. Esse poema não é meu, mas está em um projeto do qual faço parte — onde outras vozes também escrevem com o que sobra da alma. Abaixo, minha leitura de um dos textos que veio de lá. Deixo o link do poema (existem vários outros lá, que pretendo analisar no futuro) segue aqui o caminho . “Ela é fantástica e nem se dá conta” O poema começa com espanto — não o da surpresa, mas o da rendição. Dário escreve como quem descreve um fenômeno da natureza: algo que escapa à lógica. Ela não precisa saber. Ela apenas é. E isso já basta pra virar furacão dentro de quem vê. A mulher aqui não é musa passiva. Ela é movimento. Inunda, invade, colore, toma. É como um rio que não pede licença. E o eu lírico não tenta domá-la — tenta sobreviver ao impacto. “Ela só pode ser feita de som / Pois com ...

Bilhete – Mario Quintana

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Não grite meu nome Análise por Pinguim Urbano • Selo: Clássicos Desfeitos Bilhete Se tu me amas, ama-me baixinho. Não o grites de cima dos telhados. Deixa em paz os passarinhos. Deixa em paz a mim! Se me queres, enfim, tem de ser bem devagarinho, amada, que a vida é breve, e o amor mais breve ainda. ~Mario Quintana “Se tu me amas, ama-me baixinho.” Quintana não pede amor. Pede silêncio. Pede espaço para que o amor exista sem virar espetáculo. Como quem sabe que a luz demais estraga a fotografia. E que sentimento exposto demais apodrece mais rápido. “Não o grites de cima dos telhados.” O poeta rejeita o amor performático. Não quer que o sentimento vire anúncio. Porque amor, pra quem entende de perda, precisa ser tratado como uma coisa frágil. Algo que se carrega escondido no bolso, não em bandeiras de rua. “Deixa em paz os passarinhos. Deixa em paz a mim!” ...

Os ombros suportam o mundo – Carlos Drummond de Andrade

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O mundo não pesa mais Análise por Pinguim Urbano • Selo: Clássicos Desfeitos Os ombros suportam o mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. És todo certeza, já não sabes sofrer. E nada esperas de teus amigos. Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não ...

Me alugo para sonhar – Gabriel García Márquez

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Sonhar cansa. E tem gente que cobra menos por isso. Por Pinguim Urbano Me alugo para sonhar. Como não tenho mais nada, nem ninguém, alugo-me. Alugo meus olhos, para quem quiser ver com os olhos de dentro. Alugo meus braços, para quem não tem abraços. Alugo minhas pernas, para quem tem caminhos demais. Alugo minhas noites, para quem só dorme de dia. Me alugo barato, me alugo de graça. Me alugo para sonhar. “Me alugo para sonhar. Como não tenho mais nada, nem ninguém, alugo-me.” O poema já começa no fim. Quem diz isso não sonha mais por escolha — sonha porque é a única moeda que sobrou. Sonhar virou ofício, quase esmola. Quando a vida vira aluguel, até o que era sagrado vira prestação. “Alugo meus olhos, para quem quiser ver com os olhos de dentro.” A poesia aqui não é sobre esperança. É sobre cansaço. É sobre o sujeito que já cansou de olhar pra fora, e agora empresta o que sobrou de si. Um tipo...

Azul como uma laranja - Paul Éluard

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A beleza que não faz sentido (e por isso mesmo é real) Por Pinguim Urbano Azul como uma laranja A Terra é azul como uma laranja Nunca um erro as palavras não mentem Não te dá o que te prometem Com alento a te prender Os loucos e os amantes Ela, sua boca de aliança Todos os segredos, todos os sorrisos E que indulgente ornamento Até mesmo a morte a suporta Os amores de sua vida O seu segredo, sua saliva Sua febre de sempre Ela diz sim a tudo ~Paul Éluard “A Terra é azul como uma laranja” É assim que começa. Com um erro. Com um delírio. Com uma imagem que não deveria fazer sentido, mas faz — de um jeito que só quem anda com o coração quebrado pelas calçadas entende. Porque às vezes o mundo é isso: bonito e completamente incoerente. Paul Éluard era surrealista. Mas o que ele escreve aqui não é só surreal — é poético na forma mais suja e pura da palavra. Ele diz que as palavras não mentem, mas também avisa qu...