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Mostrando postagens de maio, 2025

Oh Yes

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Quando você entende, é tarde Análise por Pinguim Urbano • Selo: Clássicos Desfeitos "Existem coisas piores do que estar sozinho mas geralmente leva décadas para perceber isso e, na maioria das vezes, quando você percebe é tarde demais e não há nada pior do que tarde demais." ~Bukowski 1. Introdução e Contexto Charles Bukowski sempre escreveu como quem sangra num guardanapo de bar. Seu poema “Oh Yes” é curto, seco e quase cruel — mas carrega dentro de seis versos uma constatação que muitos levam a vida inteira para alcançar. Publicado na coletânea The Pleasures of the Damned , o poema não se cerca de firulas nem nostalgia: ele entrega a frase como quem empurra um cinzeiro cheio da mesa. Esse poema não faz voltas, não contextualiza, não pergunta. Ele já chega com a resposta, e isso é o que o torna brutal. É o tipo de texto que parece simples demais — até que você entende que está lendo a conclusão de uma vida i...

Dizem que a raposa...

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A fábula fria do abandono Análise por Pinguim Urbano • Selo: Parece mas não é Dizem que a raposa tem um jeito engenhoso de se livrar das pulgas. Ela se aproxima da água com lentidão calculada, e começa a mergulhar, centímetro por centímetro. As pulgas, incomodadas, sobem… Sobem… Até se agruparem no focinho. Então, num gesto súbito e decisivo… A raposa mergulha por completo. E quando emerge — está livre. As pulgas ficaram para trás, afogadas naquilo que não pertence mais a ela. Assim também acontece com as pessoas fortes. Quando mergulham no frio das adversidades, os primeiros a fugir são os que nunca estiveram de verdade. Amigos se afastam. Conhecidos evaporam. Os que você nutria com tempo, carinho, atenção… somem. Até parentes desaparecem no nevoeiro da ausência. Até parceiros de anos se vão. E a pessoa forte se vê sozinha — encharcada na dor, fria, exausta, confusa. Mas… não se engane. Eles eram pulgas. Parasitas disfarçados de afeto. Sugavam sua luz enquanto você brilhav...

O Abismo - DárioJr.

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O Abismo – Análise Poética Por Pinguim Urbano • Publicado em Café com Caneta O poema "O Abismo" , de Dário Junior, é um mergulho visceral na vertigem do colapso interior — aquele momento em que a vida parece nos arrastar sem piedade em direção a um ponto sem retorno. Com imagens poderosas e simbolismo sombrio, o texto evoca a sensação de ser puxado para a beira de um descontrole emocional, onde o abismo é metáfora e destino. A primeira metade do poema apresenta a inexorabilidade da queda : somos arrastados como por uma correnteza, sem forças ou recursos para resistir. A cachoeira ao longe é a visão daquilo que virá e que não pode ser evitado. A imagem do “fim da linha” não apenas sugere morte ou colapso literal, mas o esgotamento de todas as alternativas, a completa impotência diante da força avassaladora da existência. “Você sente que ao chegar lá, perderá sua mente seu corpo, sua vida.” Aqui, a linguagem é crua. Não há espaço para eufemismo...

Poema do Menino Jesus – Alberto Caeiro

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Entre o sagrado e o pó da estrada Análise por Pinguim Urbano • Selo: Clássicos Desfeitos Poema do Menino Jesus Num meio-dia de fim de primavera Tive um sonho como uma fotografia. Vi Jesus Cristo descer à terra. Veio pela encosta de um monte Tornado outra vez menino, A correr e a rolar-se pela erva E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se de longe. Tinha fugido do céu. Era nosso demais para fingir De segunda pessoa da Trindade. No céu era tudo falso, tudo em desacordo Com flores e árvores e pedras. No céu ele tinha que estar sempre sério, E de vez em quando tornar-se outra vez homem E subir para a cruz, e estar sempre a morrer Com uma coroa toda à roda de espinhos E os pés furados por um prego com cabeça. E até o que lhe ensinaram sobre o amor E a justiça e a bondade Cheirava a máquinas a trabalhar e a rangidos de ferros que custam a parar. Quando era me...